Cantor Rick foi rara voz negra no topo do sertanejo; entenda o apagamento histórico no ritmo
Rick e Renner durante apresentação no Vila Country, em São Paulo. Reprodução/Instagram/RickeRenner A confirmação da morte do cantor Rick, encontrado nest...
Rick e Renner durante apresentação no Vila Country, em São Paulo. Reprodução/Instagram/RickeRenner A confirmação da morte do cantor Rick, encontrado nesta terça-feira (22) após um acidente com helicóptero em Santa Catarina, marca a despedida de uma voz histórica da música popular brasileira. O fato lança luz sobre um dado estrutural do sertanejo. Rick era um dos poucos artistas negros a alcançar o estrelato no estilo. O gênero domina rádios e plataformas de streaming há anos, mas os rankings de sucesso são quase totalmente brancos. É preciso voltar a 1996 para encontrar a última vez que um representante negro figurou no top 10 das rádios com música sertaneja. Naquele ano, João Paulo e Daniel ocuparam a terceira posição. O próprio João Paulo, morto no ano seguinte, enfrentava o preconceito de perto. Executivos do mercado chegaram a sugerir que Daniel trocasse de parceiro no início da carreira para formar uma dupla de cantores brancos, sob a justificativa de que a formação faria mais sentido comercialmente. Rick conhecia essa realidade. Ao lado de Renner, lidou com episódios de racismo. Em um caso relatado por ele, uma fã se recusou a tirar foto com o cantor por não gostar de negros. A situação levou o parceiro a comprar a briga e recusar a foto. Cantor Rick e mais 4 pessoas morrem em queda de aeronave, confirmam bombeiros O sertanejo também guardava histórias do amigo João Paulo. Uma delas envolvia um contratante de elite que afirmou que o show não teria sido comprado se ele soubesse da presença de um homem negro na dupla. Apagamento histórico e estética excludente Para Luiz Antonio Guerra, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, a ausência de nomes negros na música sertaneja é reflexo do apagamento das raízes negras da música caipira. João Paulo, Rick e Kleo Dibah Reprodução/Instagram A partir da década de 1930, a intelectualidade paulista e a indústria iniciaram uma modernização que excluiu essas influências do gênero, restringindo o estilo à moda de viola e ao cateretê. Expressões musicais negras foram separadas e associadas exclusivamente ao samba carioca ou à música nordestina. Para o jornalista André Piunti, especialista em música sertaneja, a modernização e a indústria fonográfica estão entre as culpadas pelo embranquecimento do sertanejo. "Quando a música passa a fazer parte da indústria que coloca o LP na gôndola da loja, que leva o artista para as televisões, ou que faz a dupla rodar fisicamente para conhecer os locais, as gravadoras e alguns executivos já cortavam por serem negros." Rick, parceiro de Renner, revelou que passou por muitas situações de racismo. "A gente viveu situações delicadas. Eu vivi, sim, situações de preconceito", disse o cantor no canal de Piunti no YouTube, citando o dia em que uma fã foi ao show da dupla e pediu uma foto para Renner. Na hora em que o cantor chamou Rick para se juntar ao clique, a mulher disse "que não gostava de negros". Renner recusou o pedido da foto. A "modernização" do sertanejo foi um sinônimo de embranquecimento estético e mercadológico. Quando o estilo passou a exigir a imagem dos artistas em capas de discos e vitrines, executivos de gravadoras barravam a contratação de pessoas negras. A imposição era tão intensa que ícones absolutos do gênero, como Tião Carreiro, passaram por um clareamento visual nas capas de seus projetos para que o produto fosse melhor aceito nas vendas. O mesmo ocorreu com Cascatinha & Inhana nos anos 1950. Eles estouraram nas rádios em uma época em que o público consumia os sucessos sem conhecer o rosto dos intérpretes. Rejeição à militância e o peso de um hit A Tião Carreiro & Pardinho desde a infância Reprodução Superar essa barreira exige enfrentar um mercado que rejeita discursos sociais. O sertanejo é caracterizado por ser um ambiente resistente a militâncias. Tentativas de emplacar movimentos de conscientização racial encontram forte oposição da indústria. Sem espaço para o debate direto, a própria obra de grandes ídolos do passado reproduzia o racismo velado da época, a exemplo da faixa "Preto de alma branca", sucesso de Tião Carreiro. Nesse cenário de proporções desleais, onde há dezenas de artistas brancos tentando o estrelato para cada cantor negro, a única via de ascensão comprovada é o sucesso estrondoso de uma música. O mercado fonográfico foca no desempenho orgânico da canção. Especialistas apontam que a mudança estrutural só ganhará força quando um artista negro furar a bolha com uma faixa de alcance nacional. Esse movimento serviria como espelho para puxar uma fila de novos talentos, em uma dinâmica semelhante à que Marília Mendonça liderou para as mulheres no feminejo. Sem essa figura central de grande visibilidade, as novas gerações não se reconhecem no ritmo e o ciclo de exclusão continua. Nomes em ascensão, como Junior Marques, David Henrique e Diogo Henrique, buscam o espaço que João Paulo, Pena Branca & Xavantinho e o próprio Rick abriram a duras penas. Junior Marques já chegou a dividir palco com Gusttavo Lima em festivais recentes. A morte de Rick deixa o mainstream sertanejo ainda menos diverso.